Matilde Sirgado: “Apoiamos um modelo integrado para adaptar soluções eficazes para as crianças em situação de rua em Benguela

CAP4

Matilde Sirgado, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), em Lisboa, reflecte sobre a missão da delegação do Governo Provincial de Benguela realizada ao Instituto. Segundo a responsável, a troca de experiências e a partilha de metodologias inovadoras estão a moldar respostas mais eficazes para crianças e adolescentes em situação de rua na província de Benguela.

Ao longo da visita, a equipa de Benguela teve contacto directo com práticas de intervenção de rua, programas comunitários e modelos de atendimento especializados que servem de referência para adaptações no contexto local. Nesta entrevista, Matilde Sirgado fala sobre as aprendizagens que emergiram da missão, os desafios na construção de políticas sustentáveis e a importância de um trabalho conjunto que combina experiência técnica e sensibilidade ao contexto de Benguela.

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No seu entender, a missão do Governo de Benguela em Lisboa cumpriu com os objectivos e expectativas desenhadas?

A visita da delegação do Governo Provincial de Benguela ao IAC superou largamente as expectactivas iniciais. Tratou-se de uma missão profundamente dialogada, com grande abertura para compreender os nossos modelos de intervenção, tanto no domínio da protecção das crianças em risco como nas abordagens específicas a crianças e adolescentes em situação de rua. A delegação mostrou um compromisso muito claro com a construção de políticas públicas sustentáveis, sensíveis ao contexto local, e que apostem no reforço das capacidades técnicas e organizacionais.

Considero que a missão cumpriu plenamente os seus objectivos: aprofundámos o conhecimento técnico partilhado, consolidámos bases para uma cooperação estratégica de médio e longo prazo e abrimos portas para o desenho conjunto de respostas ajustadas à realidade de Benguela.

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Que impacto espera gerar no trabalho do Governo Provincial de Benguela após o regresso?

Espero que esta missão contribua para reforçar a visão integrada da protecção das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, particularmente daqueles que vivem contextos de rua. Acreditamos que o contacto com o nosso modelo — que combina intervenção de rua, respostas comunitárias, prevenção, capacitação de famílias e articulação com escolas e serviços públicos — poderá inspirar a adaptação de metodologias eficazes ao território de Benguela.

A médio prazo, espera-se que o impacto se traduza em três dimensões: o fortalecimento técnico, com equipas mais preparadas para a intervenção directa e a gestão de casos; o planeamento estratégico intersectorial, envolvendo saúde, educação, protecção social e autoridades locais; e a aceleração do desenvolvimento da Estratégia Provincial para Crianças em Situação de Rua, assente em bases mais claras, realistas e mobilizadoras.

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Quais são as ações prioritárias com que pretende avançar nos próximos meses?

Identificamos várias acções prioritárias. Em primeiro lugar, a formalização de um plano de cooperação técnica e/ou científica entre o Instituto de Apoio à Criança e o Governo Provincial de Benguela, com eixos estratégicos bem definidos, metas claras e responsabilidades assumidas.

Em segundo lugar, a promoção de acções de capacitação, assentes em metodologias práticas de intervenção de rua, incluindo avaliação de risco, abordagem comunitária, gestão de crise e construção de percursos de reinserção familiar e social.

Outra prioridade passa pelo aprofundamento do diagnóstico sobre a realidade das crianças e adolescentes em situação de rua em Benguela, de forma a garantir respostas mais contextualizadas e eficazes. Defendemos também o co-desenho de um modelo-piloto de respostas integradas, adaptado à realidade local, com foco na prevenção, educação e fortalecimento familiar.

Por fim, consideramos importante contribuir para a elaboração de guias metodológicos e para o desenvolvimento de campanhas de sensibilização, numa lógica de pensar globalmente e agir localmente.

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Que desafios identifica para dar continuidade ao projecto “Promoção da Estratégia para os Meninos de Rua em Benguela”?

Existem desafios significativos, mas foi precisamente isso que nos motivou a aceitar esta parceria desde o primeiro momento. Trata-se de uma cooperação entre realidades distintas, com diferenças culturais, institucionais e geográficas, o que exige um esforço acrescido.

Um dos principais desafios é garantir a sustentabilidade a longo prazo da estratégia, evitando que se trate de uma iniciativa pontual que termina com a produção de relatórios. É fundamental que esta resposta ultrapasse ciclos políticos e se traduza numa estrutura permanente. Outro desafio prende-se com a capacitação contínua das equipas, que muitas vezes não recebem o investimento necessário, apesar das exigências crescentes. Valorizar e cuidar das equipas é tão importante quanto cuidar das crianças.

Destaco ainda a articulação interinstitucional, um dos maiores desafios na prática, apesar da boa vontade existente. É essencial promover a complementaridade entre instituições, valorizar o que já existe no terreno e trabalhar num modelo integrado, e não em concorrência. Por fim, sublinho a necessidade de recursos humanos e materiais adequados e de uma adaptação cultural efectiva das metodologias. Não pode haver transferências automáticas de modelos sem respeito pelo contexto local. O sucesso desta parceria depende de uma verdadeira partilha em pé de igualdade.

Apesar dos desafios, vejo um enorme potencial nesta cooperação, sustentado pela vontade política, pela experiência técnica das equipas envolvidas e pelo compromisso assumido. Estão criadas as condições para uma base sólida que permita implementar uma estratégia provincial mais abrangente, humanizada e alinhada com a promoção dos direitos da criança.

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Esta entrevista integra-se na Acção de Diálogo “Promoção da Estratégia para os Meninos de Rua em Benguela”, implementada no âmbito do Programa Diálogos UE-Angola e financiada pela União Europeia.

A iniciativa tem como objectivo reforçar as capacidades institucionais do Governo Provincial de Benguela na protecção e inclusão de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, através da partilha de experiências e da adaptação de boas práticas internacionais à realidade local.

A Acção de Diálogo é dinamizada pelo Governo Provincial de Benguela, enquanto parceiro angolano, e o Instituto de Apoio à Criança (IAC), em Lisboa, enquanto parceiro europeu.

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